Pesquisa nacional mostra dimensão do uso de cloroquina, ivermectina e azitromicina durante a pandemia e reforça alerta sobre automedicação
Quase quatro em cada dez brasileiros que tiveram Covid-19 utilizaram pelo menos um dos medicamentos que ficaram conhecidos como parte do chamado “kit Covid”. O dado aparece em um estudo nacional publicado na Revista de Saúde Pública.
A pesquisa Epicovid 2.0 ouviu 9.591 pessoas que relataram ter tido Covid-19, distribuídas por 133 municípios brasileiros.
Entre os participantes, 63% disseram ter usado algum tipo de medicamento para tratar a doença. Os antitérmicos apareceram em primeiro lugar, utilizados por 53,7%, seguidos pelos antibióticos em geral, com 36,2%.
Quando analisados os medicamentos que ganharam destaque durante a pandemia apesar da falta de eficácia comprovada contra a Covid-19, 27,2% relataram uso de azitromicina, 23,6% de ivermectina e 12,1% de cloroquina.
Considerando quem utilizou pelo menos um desses três medicamentos, o percentual chegou a 39%.
Quem mais utilizou?
O estudo também encontrou diferenças no perfil de consumo. O uso desses medicamentos foi mais frequente entre pessoas de menor renda e escolaridade e entre adultos de 40 a 59 anos. Regionalmente, a utilização foi maior no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: declarar confiança na ciência não produziu uma diferença significativa no uso do chamado “kit Covid”. Entre os participantes que afirmaram desconfiar dos cientistas, 43% relataram o consumo; entre os que disseram confiar, o índice ficou em 38%.
Os próprios autores ressaltam uma limitação importante: as informações foram fornecidas pelos entrevistados. Portanto, o levantamento não permite determinar em todos os casos se os medicamentos foram utilizados por iniciativa própria ou sob prescrição médica.
Uma lição que permanece
Passados os momentos mais críticos da pandemia, os números deixam uma reflexão que continua atual: medicamento não deve ser sinônimo de tentativa.
Remédios possuem indicações específicas, contraindicações e possíveis efeitos adversos. O fato de um produto ser conhecido, estar disponível nas farmácias ou ser indicado para outra doença não significa que seja eficaz para qualquer infecção.
A pandemia trouxe inúmeras lições para a medicina e para a sociedade. Uma delas talvez seja especialmente importante para o nosso cotidiano: informação de qualidade e orientação profissional também fazem parte do cuidado com a saúde.
Antes de tomar um medicamento, procure orientação adequada. Automedicação não é prevenção.




