Uma pesquisa do Instituto Sumaúma mapeou entidades quilombolas que articulam práticas culturais e comunicacionais em todo o país e descobriu que esta população é fortemente alinhada às agendas de justiça climática, racial e territorial.

O Sumaúma atua na área de pesquisa de impacto social e apoia pessoas negras, indígenas e periféricas no acesso à educação.
Notícias relacionadas:
- Efeitos da emergência climática no oceano preocupam pesquisadores.
- Voçorocas ameaçam Buriticupu e especialista alerta para risco urbano.
- Plano busca fortalecer Sistema Nacional do Meio Ambiente até 2036.
Para Juliane Sousa, pesquisadora quilombola que atuou como consultora da pesquisa, o levantamento é fundamental porque reconhece as ações de comunicação e cultura empenhadas pela população quilombola há muito tempo.
“Ao identificar e enumerar essas atividades, a pesquisa auxilia no acesso a editais e ajuda organizações que trabalham com territórios quilombolas a entender que essas ações existem, permitindo que pensem estrategicamente em como apoiá-las,” argumenta.
A pesquisadora ressalta que os estudos sobre a comunidade quilombola são escassos e isso se reflete na falta de direitos. Juliane Sousa relembra que o primeiro Censo do IBGE que identificou, especificamente, localidades e populações quilombolas foi realizado somente em 2022.
“Isso é muito grave, porque é uma população que existe neste território desde que ele foi invadido, há mais de 500 anos. A falta de dados implica na falta de acesso a direitos básicos para essa população, como educação, saúde e alimentação”, comentou Juliane.
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
Dados coletados
De comunicadores a influenciadores quilombolas, foram consultados 53 agentes de comunicação a partir de um formulário online. Também houve a realização de um grupo focal com oito lideranças quilombolas.
A pesquisa observou que os agentes produzem conteúdos que preservam a memória das comunidades, registrando comemorações locais (81%), o plantio e a colheita do próprio alimento (73,6%), o artesanato (68%) e contações de história (64,2%), por exemplo.
Também foram analisadas pautas debatidas nas práticas culturais e comunicacionais. Com possibilidade de múltiplas respostas, as temáticas envolvem racismo (87%), políticas públicas (85%), educação (77,4%), problemas ambientais (70%), demarcação territorial (64%), titulação territorial (62,3%), acesso à renda (60%) e justiça climática (53%).
O estudo também evidencia as dificuldades acerca da produção de conteúdo digital nas comunidades quilombolas. Nas regiões rurais, muitos relataram falta de acesso à internet, limitações financeiras para aquisição de ferramentas e softwares, e dificuldades de compreensão no uso dessas ferramentas.
Ainda foram apontadas dificuldades para captar recursos devido à falta de acessibilidade dos editais e de incentivo de financiadores. Mais de 40% dos entrevistados disseram que não recebem nenhuma renda pelas atividades culturais e comunicacionais desenvolvidas.
Mapa Interativo
Ao pensar na questão da falta de visibilidade, articulação e fortalecimento da população quilombola, o Instituto Sumaúma criou um mapa interativo de acesso aberto. Pela plataforma, é possível filtrar as comunidades por cidade, estado e país.
Taís Oliveira, fundadora e diretora executiva do instituto, explica que o mapa também facilita o contato com comunicadores e agentes culturais quilombolas.
“Assim é possível dialogar com pessoas que queiram conhecer mais sobre a cultura e as pautas quilombolas, visitar ou adquirir produtos e serviços dessas comunidades”, diz Taís.
Chapada dos Veadeiros
Um dos coletivos participantes do estudo foi a Rede Kalunga de Comunicação. Desde 2021, a mídia independente de comunicação se propõe a contar a história das comunidades quilombolas do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, o maior território quilombola em extensão do Brasil, na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.
O principal objetivo da rede é trazer uma visão do território de dentro do próprio território, garantindo que as histórias sejam contadas por quem as vive. A rede atua na produção e execução de oficinas, eventos, podcasts, jornal e conteúdos audiovisuais.
A comunicóloga e cofundadora da Rede Kalunga, Daniella Teles, explica que a iniciativa busca valorizar o conhecimento dos membros da comunidade ao mostrar que a cultura e a oralidade deles são ricas e fundamentais para a manutenção da comunidade por séculos.
Daniella também observa que as atividades articuladas pelo coletivo reverberam na autoestima da comunidade.
“Vemos que as pessoas tinham vergonha de falar que eram kalungas, por causa da exclusão causada pela estrutura racista em que vivemos. Agora elas ocupam seus espaços de direito”, diz.
O próximo passo para o coletivo é o lançamento de um site quilombola, com o objetivo de levar para o mundo informações sobre a comunidade. O projeto busca criar uma comunicação acessível, educativa e continuada para que a história não seja esquecida ou desvalorizada.
*Estagiário da Agência Brasil sob supervisão de Odair Braz Junior



