Foto: Leonardo Sá/Agência Senado
A eleição presidencial de 2026 tende a concentrar atenções, mas o verdadeiro redesenho do poder político brasileiro acontecerá de forma mais difusa — nos estados e, sobretudo, no Senado. Com dois terços das cadeiras em disputa, a Casa Alta se consolida como o principal campo de batalha do próximo ciclo institucional, capaz de determinar não apenas a governabilidade de quem ocupar o Planalto, mas também os limites de atuação do Congresso frente ao Judiciário.
A oposição conservadora já compreendeu esse jogo. Mais do que vencer a Presidência, o objetivo estratégico é criar uma maioria sólida no Senado, funcionando como uma muralha política contra um eventual quarto mandato de Lula e como instrumento de pressão institucional inédita desde a redemocratização. Do outro lado, a esquerda enfrenta o desafio de competir em disputas majoritárias onde a força do nome individual, o recall conservador e o discurso antipolítica institucional seguem altamente competitivos.
O Sudeste como eixo de poder e risco
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro seguem como o grande cinturão decisório da política nacional. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas aparece como o governador com menor incentivo ao risco: bem avaliado, competitivo e sem um adversário claro no campo governista, sua permanência no estado parece hoje mais racional do que uma aventura presidencial. A direita paulista encontra nele um ativo seguro, enquanto a esquerda segue sem nome de consenso — Haddad não demonstra disposição, Alckmin não deseja retornar ao Palácio dos Bandeirantes, e o PT vive um impasse estratégico.
No Senado paulista, o cenário reflete a polarização nacional. Nomes da direita bolsonarista e quadros petistas bem posicionados dividem espaço, indicando uma disputa altamente personalizada e menos dependente de máquinas partidárias tradicionais.
Minas Gerais mantém seu papel histórico de estado-pêndulo. Com Romeu Zema fora da disputa estadual, abre-se um vácuo de liderança que fragmenta o campo da direita liberal. O senador Cleitinho cresce como fenômeno eleitoral, enquanto Alexandre Kalil surge novamente como um candidato de alto risco e alto impacto. No campo governista, a indefinição persiste, mas o movimento de Rodrigo Pacheco sugere que Minas ainda pode se tornar uma peça-chave para o projeto lulista — caso encontre uma candidatura viável e um partido capaz de abrigá-la.
No Rio de Janeiro, Eduardo Paes consolida sua posição como favorito ao governo, mas caminha sobre uma linha delicada: precisa dialogar com o Planalto sem perder o eleitorado conservador do interior. Já o Senado fluminense tende a repetir o padrão nacional: uma vaga praticamente garantida à direita e outra mergulhada em pulverização de nomes, onde o peso regional e o histórico político falarão mais alto que alinhamentos ideológicos puros.
Redutos em teste: Bahia, Paraná e o desgaste do poder prolongado
A Bahia simboliza um fenômeno recorrente em ciclos longos de hegemonia: o desgaste natural do poder. O PT enfrenta seu maior desafio no estado em duas décadas, com ACM Neto reaparecendo como alternativa competitiva e mostrando que a associação direta com Lula já não garante blindagem automática. A disputa baiana revela um eleitorado mais pragmático, atento a segurança pública, serviços e resultados concretos.
No Senado, o cenário é ainda mais sensível. A tentativa de montar uma superchapa governista esbarra na força municipal do PSD, que não aceita papel secundário. O resultado pode redefinir o equilíbrio interno da base aliada no Nordeste.
O Paraná segue como território hostil à esquerda. A direita domina tanto a corrida ao Senado quanto o debate sucessório estadual, mesmo diante de conflitos partidários internos. Ratinho Jr. surge como peça-chave nacional, seja como presidenciável, seja como fiador de um projeto conservador robusto no Congresso. Para o PT, o desafio permanece o mesmo: romper a bolha em um dos estados mais ideologicamente consolidados contra o campo progressista.
Goiás e Pará: liderança local com ambição nacional
Goiás ilustra como aprovação elevada se converte em poder de transferência. Ronaldo Caiado atua como arquiteto de uma sucessão confortável e projeta o estado como um dos polos mais sólidos da direita nacional. A disputa pelo Senado reforça essa tendência, com nomes alinhados ao conservadorismo liderando com folga.
No Pará, o movimento é inverso. Helder Barbalho utiliza o protagonismo internacional da COP30 como vitrine política e constrói uma transição sem sobressaltos no governo estadual. Sua liderança no Senado é expressiva, e a briga pela segunda vaga será decisiva para definir se o estado ampliará ou não sua influência no bloco governista em Brasília.
Nordeste dividido, Sul polarizado
Alagoas caminha para uma consolidação à direita, com JHC avançando sobre o espaço antes dominado pelo clã Calheiros. O movimento familiar e estratégico em torno do Senado indica que o jogo não se limita ao Executivo estadual, mas à reconfiguração de forças históricas.
Pernambuco vive uma das situações mais delicadas do campo progressista. A divisão entre apoiar João Campos ou reaproximar-se de Raquel Lyra expõe fraturas internas que podem custar caro nacionalmente, sobretudo na relação com o PSB. O estado tornou-se um teste de lealdades e pragmatismo eleitoral.
No Ceará, a possível volta de Ciro Gomes transforma a disputa em um embate de alta intensidade simbólica. O estado pode se tornar um dos palcos mais ruidosos da eleição, com impacto direto na narrativa nacional. Já no Rio Grande do Sul, a fragmentação de forças empurra o eleitorado para uma polarização dura, reproduzindo o conflito ideológico do país em escala regional.
O Senado como eixo central do poder em 2026
Mais do que nunca, a eleição de 2026 será decidida fora do Palácio do Planalto. Governadores definirão palanques, recursos e narrativas regionais, mas será o Senado o verdadeiro termômetro da estabilidade institucional.
Com candidaturas personalistas, eleitorado altamente ideologizado e uma direita organizada em torno de um objetivo comum, a disputa senatorial tende a ser o jogo mais estratégico do próximo ciclo político. Para a esquerda, o desafio não é apenas vencer, mas conter. Para a direita, não basta crescer: é preciso consolidar maioria.
Em 2026, o poder não estará concentrado em um cargo, mas distribuído em um tabuleiro complexo — onde cada estado pode redefinir o futuro do país.




