A renúncia de Zema e o cálculo por trás da pré-candidatura presidencial

A decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), de renunciar ao cargo em março para disputar a Presidência da República em 2026 não é apenas um ato administrativo exigido pela legislação eleitoral. É, sobretudo, um movimento político calculado, que revela como as disputas nacionais já estão em curso — ainda que oficialmente o calendário eleitoral não tenha virado a página.

Ao deixar o governo duas semanas antes do prazo final de desincompatibilização, Zema busca algo essencial em uma eleição presidencial: tempo, visibilidade e narrativa. Fora do cargo, ele ganha liberdade para circular pelo país, reforçar seu discurso e tentar romper uma das maiores barreiras de candidaturas regionais: o desconhecimento fora de seus redutos eleitorais.

Do ponto de vista feminino — que historicamente observa o poder com atenção aos gestos, às ausências e aos impactos — a renúncia também levanta perguntas importantes: quem governa quando se governa pensando na próxima eleição? E como ficam os eleitores quando o mandato passa a ser ponte para um projeto pessoal?

A transmissão do cargo ao vice-governador Mateus Simões, também pré-candidato, evidencia outro aspecto recorrente da política brasileira: a antecipação das disputas sucessórias dentro dos próprios estados. Minas, mais uma vez, torna-se peça-chave no tabuleiro nacional, não apenas pelo tamanho eleitoral, mas pelo simbolismo político.

Zema insiste em negar qualquer possibilidade de compor uma chapa como vice, reforçando o discurso de candidatura própria. Essa postura revela um traço recorrente entre lideranças masculinas na política brasileira: a dificuldade de construir projetos coletivos que não estejam centrados na figura do “candidato salvador”. O campo da direita, fragmentado, vive um momento em que múltiplos nomes disputam o mesmo eleitorado, muitas vezes sem diálogo estratégico.

Sob o olhar da mulher na política, chama atenção também o discurso adotado pelo governador desde o lançamento de sua pré-candidatura. A retórica de enfrentamento ao PT e ao Supremo Tribunal Federal dialoga com uma base já consolidada, mas pouco contribui para ampliar pontes com setores ainda indecisos do eleitorado — especialmente mulheres, jovens e eleitores urbanos que buscam propostas concretas para áreas como saúde, educação e proteção social.

E há uma questão central que não pode ser ignorada: onde estão as mulheres nesses projetos de poder? Enquanto nomes masculinos ocupam o centro do debate presidencial, a sub-representação feminina segue como um silêncio estrutural nas grandes articulações políticas. Não basta falar em renovação política sem enfrentar, de forma real, a desigualdade de gênero nos espaços de decisão.

A renúncia de Zema marca mais um capítulo da pré-campanha de 2026, mas também expõe velhos padrões da política nacional. Para além dos nomes, o que está em jogo é o modelo de liderança que o país pretende fortalecer — e se haverá espaço para um projeto que dialogue com a diversidade da sociedade brasileira, incluindo, de fato, o olhar e a participação das mulheres.

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