Impacto financeiro de bets no SUS chega a R$ 30,6 bilhões por ano


Logo Agência Brasil

O impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 30,6 bilhões por ano. O dado consta de estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).

Nessa conta, entram as despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e impactos causado pelas mortes por suicídio. 

Notícias relacionadas:

Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos.

Nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar.

De acordo com o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Segundo ele, com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.


Brasília (DF), 16/09/2026 - Diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati. Foto: MS/Arquivo/Divulgação
Brasília (DF), 16/09/2026 - Diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati. Foto: MS/Arquivo/Divulgação
Diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati – Foto: MS/Arquivo/Divulgação

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste.”

Diante da alta procura, a capacidade foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).

O diretor diz que outro indicativo do crescimento do problema com jogos e apostas vem da plataforma de autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda. Foram bloqueados mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal.

Além de atingir atendidos pelo Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários pediram autoexclusão. Nesse último caso, quase metade alegou problemas de saúde mental relacionados a apostas.

Ouça na Radioagência Nacional
 

Há cerca de dois meses sem apostar, o vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, utilizou a plataforma de autoexclusão para evitar novas recaídas e se manter longe das bets. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele começou a fazer apostas online aos 18 anos. Em um período de seis anos, chegou a perder meio milhão de reais por causa do vício. 

Gustavo diz que a ferramenta de autoexclusão foi fundamental para que ele pudesse retomar o controle da situação. “Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, lembra.

O jovem começou a vender café nas ruas de Lages para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets. Para o vendedor, a luta contra o vício deve ser constante. “Não me orgulho de nada do que eu fiz nessa época, e hoje, graças a Deus, eu consigo, com muita transparência, falar com as pessoas, ajudá-las, ainda faço acompanhamento, é uma luta diária contra o vício.”
 


Santa Catarina - 17/09/2026 - O jovem Gustavo Pereira começou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets - Foto: Gustavo Pereira/Arquivo Pessoal
Santa Catarina - 17/09/2026 - O jovem Gustavo Pereira começou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets - Foto: Gustavo Pereira/Arquivo Pessoal
Gustavo Pereira começou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets – Foto: Gustavo Pereira/Arquivo Pessoal

Família

O apoio familiar também é fundamental para quem precisa enfrentar o problema da dependência em jogos e apostas, afirma Carla Xavier*, de 41 anos, jogadora compulsiva. Frequentadora de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores Anônimos, ela está há mais de um ano longe do vício.

“Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, lembra ela, que destaca o apoio que recebeu dos familiares para largar o vício.

”Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, aponta, ao acrescentar que a parte mais difícil de buscar ajuda é entender que se trata de uma doença.

“Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença. Você acha que ‘eu jogo, mas eu paro quando eu quero’, mas não é assim. A partir do momento que você desenvolveu a compulsão, você precisa de ajuda para poder parar.”

A irmandade Jogadores Anônimos também presta apoio a familiares e amigos de jogadores compulsivos, por meio da organização JOG-Anon.

“Nós temos uma sala, uma irmandade paralela que se chama JOG-Anon, que é para familiares. Eles frequentam junto com a gente, mas na nossa sala só tem jogadores. Na sala de JOG-Anon só tem familiares, amigos, simpatizantes. A pessoa é uma codependente, mas não conhece o assunto, o melhor caminho é o JOG-Anon.”


Brasília (DF), 14/09/2026 - Bets. Mariana Kehl. Foto: Mariana Kehl/Arquivo Pessoal
Brasília (DF), 14/09/2026 - Bets. Mariana Kehl. Foto: Mariana Kehl/Arquivo Pessoal
Psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia – Foto: Mariana Kehl/Arquivo Pessoal

Para a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família tem que agir no momento em que perceber o problema da dependência em jogos e apostas. Entre os sinais mais frequentes estão isolamento, mudanças de humor e gastos mais elevados.

“Não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”, diz.

O psiquiatra forense e diretor da Vida Mental Perícias, Hewdy Lobo, destaca a permissividade familiar no controle do tempo de jogo de crianças e adolescentes como um dos fatores que podem levar ao vício em jogos. 

Para a especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, não é o relógio, mas o comportamento que determina a dependência.

”Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional”, alerta a advogada.

Em alguns casos, além do psicólogo e/ou psiquiatra, o tratamento requer o uso de medicamentos. Para Carla Xavier, muitas vezes é preciso ir “além do fundo do poço” para entender que é preciso pedir ajuda.

”Ela [a pessoa com dependência] só vai se dar conta disso a hora que chegar ao fundo do poço, cavar mais um pouquinho, e aí ela vai entender que, sem a ajuda dos seus iguais, não vai conseguir sair dessa situação.”

Longe do vício, Carla conta que voltou a ser quem era antes de conhecer os jogos. ‘Voltei a ter minha autoconfiança, um trabalho digno, honesto, e a vida só tem me dado surpresas boas.”

Graças ao grupo Jogadores Anônimos, Luiz Carlos, atualmente com 71 anos de idade, está há 15 sem jogar. Ele diz que, na irmandade, encontrou acolhimento. “Quando você chega, todo mundo te abraça, ninguém aponta um dedo para esses problemas. Porque, quando você chega, você mesmo se acha um inútil. E, quando você chega lá dentro, você vê que todo mundo é igual.”

Rogério*, de 53 anos, também da irmandade, aconselha quem está no vício de jogo a procurar ajuda o mais rapidamente possível. “É difícil perceber que precisamos de ajuda. Acontece, geralmente, quando já estamos no fundo do poço”, diz ele, que está há mais de um ano sem jogar.

O apoio gratuito também está disponível no SUS, que oferece teleatendimento psicológico acessível pelo portal Meu SUS Digital, além de atendimento presencial nas unidades Básicas de Saúde (UBSs) e nos centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Há atendimento também para familiares. O serviço é sigiloso e permite o acesso à assistência especializada a distância.

A pessoa com dependência pode buscar grupos de apoio como a irmandade Jogadores Anônimos, em reuniões presenciais ou online, ou o Centro de Valorização da Vida (CVV), com atendimento pela internet ou pelo número 188.

+ Ouça também na Radioagência Nacional:

Dos games às apostas online: impactos na saúde mental dos brasileiros

Dos games às apostas online: como surge o endividamento

Dos games às apostas online: as leis que tentam reduzir danos

Dos games às apostas online: como pedir ajuda contra dependência

*Sobrenome omitido a pedido dos entrevistados.

Colaborou Luciene Cruz

Ana Lúcia Caldas – Repórter da Rádio Nacional

Últimas