A Festa Literária de Paraty (Flip), na 24ª edição, teve uma escolha relevante para ampliar a diversidade geográfica e cultural dos convidados, reunindo escritores de diferentes países e trajetórias.

Um dos destaques é a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, cuja obra mais recente narra os destinos de três mulheres submetidas à violência doméstica. A convidada esteve em mesa do programa principal da Flip, nesta sexta-feira (24).
Notícias relacionadas:
- Coletânea reúne poetas invisibilizadas ao longo de quatro séculos.
- Flip: evento de abertura define Orides Fontela como poeta universal.
- 70 anos de Grande Sertão: Veredas é tema de eventos gratuitos na Flip.
Com uma obra marcada pela investigação das violências íntimas e sociais, a escritora define Noite no coração (Bazar do Tempo), traduzido e publicado em mais de 15 países, como uma tentativa de romper o silêncio.
As personagens têm origem em histórias reais, sendo uma delas inclusive a própria autora. As outras duas foram assassinadas por seus companheiros.
Ela relatou que a obra traz elementos não apenas de um relato, mas de romance e reflexão.
“Tudo isso estava contido neste livro e que sobretudo havia nele a tentativa de uma escritora de colocar adiante a linguagem e sua própria condição”, disse, durante o evento.
A autora contou ainda que, no início da produção da obra, há mais de cinco anos, tinha consciência de que se tratava de um livro primeiramente sobre o tempo.
“Eu tinha a impressão de que a única coisa que eu poderia fazer como objetivo literário seria contrair o tempo, fazer com que três mulheres que jamais se encontraram ou conheceram existissem no mesmo local, trazer essas três existências pra dentro do livro.”
Nascida nas Ilhas Maurício, dentro de uma família de imigrantes indiano e que se radicou na França, Nathacha explicou como a ideia de deslocamento e de migração marca sua vida e sua escrita.
“O que eu aprendi antes dos deslocamentos, antes do que é deslocamento, é que nenhuma língua é superior às outras. Havia a língua do coração, da intimidade, da escola. Havia a língua que nós falamos com um vizinho específico, uma língua de sedução”, disse.
“E todas essas línguas na minha casa, na minha vida, formavam uma espécie de existência. As Ilhas Maurício ficam muito longe de tudo, e nessa casa estranha – eu digo estranha, mas era muito bela – eu tinha a impressão de ter o mundo ao meu alcance”, concluiu.
A escritora mencionou que morava com seus pais e avós, duas gerações que já apresentavam diferenças importantes entre elas e que marcaram sua vivência.
“Meus avós eram pessoas que nasceram e viveram numa plantação de cana-de-açúcar na era colonial. Eles falavam uma língua indiana, que é minha língua materna”.
“E, ao lado dos meus pais, que eram pessoas instruídas, que frequentavam a escola, que trabalhavam, eu tinha a impressão de viver como num fio que se estendia entre um passado que eu jamais havia conhecido, mas cujas histórias chegavam até mim porque minha avó contava muitas coisas, ela me falava em várias línguas. Por outro lado, havia meus pais que viviam numa modernidade voltada para o exterior, para fora”, acrescentou.
Na mesma mesa, estava também a brasileira Bethânia Pires Amaro, que em Ressalga (Record) traz o tema da violência de gênero, em uma narrativa sobre três gerações de mulheres na Bahia.
Para narrar a vida de personagens, a escritora relatou que uma das ferramentas é recorrer ao realismo mágico.
“O realismo mágico acaba trazendo um olhar muito rico e muito particular que permite uma aproximação um pouco mais indireta. E que vai brincar um pouco também com essa imaginação do leitor, vai mostrar, por exemplo, essas mulheres não reduzidas àquelas violências, mas como seres que realmente estão florescendo”, disse.
*A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.
Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil



