Protagonismo feminino e acolhimento: a força da Casa da Mulher Brasileira em Salvador

O protagonismo feminino também se constrói nos espaços de proteção, escuta e reconstrução de vidas. A recente visita da representante da ONU Mulheres no Brasil, Gallianne Palayret, à Casa da Mulher Brasileira, em Salvador, reforça justamente essa reflexão: garantir dignidade, segurança e acolhimento às mulheres em situação de violência é uma das formas mais concretas de fortalecer o papel feminino na sociedade.

Durante a visita, Gallianne acompanhou de perto todo o percurso de atendimento oferecido pela unidade, conhecendo cada etapa do fluxo de acolhimento conduzido pela coordenadora Ana Clara Auto. O espaço reúne, em uma única estrutura, serviços essenciais como delegacia especializada, atendimento psicossocial, polícia militar, apoio judicial, assistência em saúde e até uma brinquedoteca para acolher os filhos das mulheres atendidas.

Mais do que um equipamento público, a Casa da Mulher Brasileira representa um símbolo de resistência e reconstrução. Muitas mulheres chegam ao local após vivenciarem situações extremas de violência física, psicológica, patrimonial e emocional. Em média, o atendimento dura cerca de três horas, mas o tempo mais importante não está no relógio — está no direito de ser ouvida.

Um dos diferenciais do serviço é justamente evitar a revitimização. O relato da mulher é registrado em um sistema compartilhado entre os setores, reduzindo a necessidade de repetir sua dor várias vezes. Ainda assim, muitas escolhem contar novamente sua história. E isso revela algo profundo: para muitas delas, talvez seja a primeira vez que alguém realmente escuta.

A complexidade dos casos atendidos também mostra a urgência de políticas públicas sérias e permanentes. Mulheres em situação de rua, vítimas com transtornos psicológicos graves e mulheres submetidas a múltiplos ciclos de violência exigem um atendimento humanizado, individualizado e integrado.

A construção de uma sala própria para perícia física dentro da unidade é mais um avanço importante, pois evita deslocamentos desgastantes e amplia a agilidade no acolhimento.

A gestão compartilhada entre governo estadual e municipal também demonstra que, quando a prioridade é a proteção da mulher, as divergências políticas precisam ficar em segundo plano. O foco deve ser sempre a vida, a dignidade e a reconstrução da autonomia feminina.

Falar de protagonismo feminino não é apenas destacar mulheres em cargos de poder ou liderança política. É também reconhecer a força silenciosa de quem luta diariamente para recomeçar. É garantir que existam estruturas capazes de transformar dor em proteção, medo em acolhimento e silêncio em voz.

A Casa da Mulher Brasileira não é apenas um prédio. É um espaço onde mulheres voltam a acreditar que podem seguir em frente — e isso também é protagonismo.

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