Na ilha de Fernando de Noronha, uma iniciativa de saúde tem chamado atenção ao oferecer novas possibilidades de cuidado para famílias que convivem com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Entre os relatos que ilustram essa realidade está o da professora Rayane Dixie dos Santos, mãe solo de uma criança neurodivergente que enfrentava crises intensas de agitação e agressividade. Somando a rotina de trabalho, o cuidado com outro filho e a ausência de rede de apoio constante, ela relata ter desenvolvido um quadro de ansiedade e dificuldades relacionadas ao sono.
Nos últimos meses, o filho de Rayane passou a receber acompanhamento com uso de canabidiol (CBD), substância derivada da cannabis medicinal, como parte de um projeto voltado ao atendimento de famílias da ilha. Segundo relatos, após o início do tratamento, houve melhora no comportamento e redução na frequência das crises.
A ação integra o Projeto Noronha, desenvolvido por meio da articulação entre organizações da área da saúde e a administração local, com foco em ampliar o acesso a tratamentos integrativos e fortalecer o acompanhamento de famílias com crianças neuroatípicas.
A iniciativa já realizou mutirões médicos na ilha, com consultas e distribuição de óleos de canabidiol para pacientes acompanhados pelo programa. Além do atendimento direto, o projeto também avança na proposta de criação de uma estrutura permanente de acolhimento e acompanhamento para as famílias.
Outro ponto destacado pelos idealizadores é a atenção voltada às mães, que muitas vezes assumem de forma exclusiva os cuidados com os filhos. Em muitos casos, essas mulheres também enfrentam sobrecarga emocional e sintomas de ansiedade e depressão.
Entre as participantes do projeto está Rebeca Allen, mãe de uma criança com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial. Ela relata que também enfrentou problemas de saúde mental relacionados à rotina intensa de cuidados, e que passou a observar mudanças positivas após acompanhamento e início do tratamento.
O contexto da ilha reforça os desafios enfrentados pela população local no acesso à saúde. Com uma estrutura limitada e grande distância do continente, casos mais complexos exigem deslocamento para centros urbanos, o que impacta diretamente o tratamento contínuo de pacientes.
Segundo os organizadores da iniciativa, o objetivo é transformar ações pontuais em uma rede permanente de atendimento, com acompanhamento regular e produção de dados que possam contribuir para estudos futuros sobre saúde mental, neurodivergência e impacto social em regiões isoladas.
Mais do que um modelo de tratamento, o projeto também coloca em evidência a realidade de famílias que lidam diariamente com o cuidado de crianças neurodivergentes e a necessidade de políticas públicas mais amplas e integradas para esse público.




