Ribeirinhos carregam galões de água enquanto atravessam bancos de areia do rio Madeira até a comunidade Paraizinho, em meio à pior seca da história. Humaitá, Amazonas. — Foto: Bruno Kelly/Reuters
O mundo já ultrapassou o estágio de crises hídricas pontuais e entrou em uma era de falência hídrica, caracterizada pelo uso de mais água doce do que a natureza é capaz de repor de forma sustentável. A avaliação consta em estudo do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde, divulgado em janeiro de 2026.
Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano. Os efeitos já são visíveis em diversas regiões: reservatórios em níveis críticos, cidades afundando, colheitas comprometidas, racionamento de água e aumento de incêndios florestais e tempestades de poeira.
Segundo o relatório, a falência hídrica ocorre quando a retirada de água supera de forma contínua a capacidade natural de reposição e quando aquíferos, rios e zonas úmidas sofrem danos difíceis ou impossíveis de reverter. Exemplos vão de Teerã, no Irã, ao rio Colorado, nos Estados Unidos, cuja demanda já excede a oferta disponível.
A agricultura, responsável por cerca de 70% do uso global de água doce, está entre os setores mais vulneráveis. Aproximadamente 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em regiões onde o armazenamento de água é instável ou está em declínio, elevando riscos à segurança alimentar e à estabilidade social.
O estudo também alerta para o avanço da subsidência do solo, fenômeno causado pela extração excessiva de água subterrânea. Grandes cidades como Cidade do México, Jacarta e Bangkok enfrentam afundamentos irreversíveis, afetando infraestrutura urbana e aumentando custos públicos.
As mudanças climáticas agravam o cenário ao intensificar secas, reduzir a precipitação em diversas regiões e aumentar a demanda hídrica da agricultura, da geração de energia e de novos setores, como os centros de dados voltados à inteligência artificial.
Para os pesquisadores, enfrentar a falência hídrica exige reconhecer os limites naturais, proteger ecossistemas como zonas úmidas e aquíferos, reduzir o consumo de forma justa e investir em monitoramento e planejamento de longo prazo. Sem essa mudança de rota, alertam, os impactos econômicos, sociais e políticos tendem a se intensificar.




