Feminicídio no Brasil: quando os números gritam e as mulheres resistem

Texto analítico e autoral do site Mulher Capital Brasília, elaborado a partir da interpretação jornalística de dados públicos, levantamentos oficiais e contextualização própria da coluna Mulheres Protagonistas e Voz da Mulher.

O Brasil encerrou 2025 com um dado alarmante e doloroso: 1.470 feminicídios registrados entre janeiro e dezembro, o maior número desde a criação da tipificação penal em 2015. O total supera os 1.464 casos de 2024, que até então representava o recorde histórico. Na prática, isso significa que quatro mulheres foram assassinadas por dia no país simplesmente por serem mulheres.

E esse número tende a ser ainda maior. Dados de dezembro do estado de São Paulo — o que mais registra feminicídios no Brasil — ainda não foram totalmente atualizados na base federal do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ou seja, o cenário real pode ser ainda mais grave do que as estatísticas oficiais mostram.

Uma década de crescimento contínuo da violência letal contra mulheres

Desde 2015, quando o feminicídio passou a ser reconhecido como crime específico no Código Penal, o Brasil saiu de 535 casos anuais para 1.470 em 2025 — um crescimento de 316% em apenas dez anos. Ao todo, 13.448 mulheres foram mortas nesse período, uma média de 1.345 feminicídios por ano.

São Paulo lidera o ranking absoluto, com 1.774 casos acumulados na década, seguido por Minas Gerais (1.641) e Rio Grande do Sul (1.019). Já em relação à taxa por 100 mil habitantes, os estados com maior incidência são Acre (1,58), Rondônia (1,43) e Mato Grosso (1,36).

Esses números não são apenas estatísticas. Eles carregam histórias interrompidas, famílias destruídas e crianças marcadas para sempre.

Feminicídio ainda é subnotificado

Segundo a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, os dados oficiais ainda subestimam a real dimensão do problema. Em muitos estados, crimes que apresentam claros indícios de ódio de gênero seguem sendo registrados apenas como homicídio.

Há unidades da federação em que os feminicídios representam de 40% a 60% das mortes de mulheres, enquanto em outras esse percentual varia entre 15% e 20%, o que evidencia falhas na consolidação do tipo penal e nos registros.

Além disso, pesquisas do Fórum apontam crescimento de outras formas de violência contra mulheres — perseguições, espancamentos e estrangulamentos — crimes que frequentemente antecedem o feminicídio.

“Se estamos diante de um recorde, esse número ainda é subestimado e, na prática, é maior do que conseguimos mensurar”, alerta Samira.

Histórias que revelam a brutalidade cotidiana

Ao longo de 2025, casos chocaram o país e escancararam a violência extrema sofrida por mulheres, muitas vezes dentro de relações afetivas marcadas por ameaças e agressões.

Em São Paulo, Tainara Souza Santos, de 31 anos, mãe de dois filhos, morreu após quase um mês internada. Ela foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro pelo ex-companheiro. O caso, inicialmente tratado como tentativa de feminicídio, passou a ser investigado como feminicídio após sua morte.

No Recife, Isabele Gomes de Macedo, de 40 anos, e seus quatro filhos, entre 1 e 7 anos, morreram carbonizados após o companheiro atear fogo na casa após uma discussão. O suspeito foi preso.

Essas histórias não são exceções. São o retrato de uma violência estrutural que insiste em silenciar mulheres.

Avanço legal, desafio social

Em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma nova lei que aumenta as penas para o crime de feminicídio, elevando a punição para 20 a 40 anos de prisão. Antes, a pena variava de 12 a 30 anos.

A legislação também prevê aumento de pena quando o crime ocorre:

  • Durante a gravidez ou até três meses após o parto;
  • Contra menores de 14 anos ou maiores de 60;
  • Na presença de filhos ou pais da vítima.

O avanço legal é importante, mas insuficiente se não vier acompanhado de políticas públicas eficazes, proteção real às mulheres ameaçadas e mudança cultural profunda.

Mulheres protagonistas, vozes que não podem ser caladas

Na coluna Mulheres Protagonistas e Voz da Mulher, este espaço reafirma um compromisso: não naturalizar a violência, não silenciar os dados e não esquecer os nomes.

Cada número representa uma vida. Cada estatística é um alerta. Enquanto mulheres continuarem morrendo por serem mulheres, o país seguirá em dívida com metade da sua população.

Dar visibilidade, cobrar respostas e fortalecer a voz feminina não é militância vazia — é urgência social, política e humana.

Este conteúdo é autoral, produzido pelo Mulher Capital Brasília, com base em dados oficiais e análise própria, sendo vedada a reprodução integral sem a devida citação da fonte.

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