Mercosul e União Europeia selam acordo histórico após 25 anos de negociações

Após mais de duas décadas de negociações, o tratado econômico entre o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente assinado neste sábado (17/1), em cerimônia realizada em Assunção, no Paraguai. O acordo marca um dos movimentos mais relevantes de integração comercial entre os dois blocos nas últimas décadas.

Estiveram presentes na solenidade os presidentes Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e José Raúl Mulino (Panamá), além do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Pelo lado europeu, participaram Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu.

Durante o discurso, o presidente paraguaio Santiago Peña destacou o papel do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não compareceu ao evento. Segundo ele, a atuação de Lula foi decisiva para a retomada e conclusão das negociações. “Sem ele, esse acordo não seria possível”, afirmou.

Pelo lado europeu, António Costa celebrou a assinatura do tratado em um cenário internacional que classificou como “cada vez mais turbulento”, enquanto Ursula von der Leyen ressaltou que a parceria busca fortalecer um comércio mais justo, em contraposição à lógica de tarifas e barreiras comerciais.

Em nota oficial, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) destacou que o acordo garante ao Mercosul acesso preferencial à União Europeia — a terceira maior economia do mundo, com um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores e aproximadamente 15% do PIB global. Segundo a pasta, a UE eliminará tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, o equivalente a cerca de US$ 61 bilhões, além de conceder acesso preferencial para outros 7,5% das vendas externas do bloco.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também comemorou o avanço e estimou que o acordo ampliará o acesso do Brasil ao comércio mundial de 8% para 36%. Para a entidade, o tratado representa um marco para o fortalecimento da indústria nacional, a diversificação da pauta exportadora e a maior inserção do país nas cadeias globais de valor.

Apesar da assinatura, o acordo ainda não entra em vigor. Ele precisará ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos, processo que pode enfrentar resistências políticas e resultar em ajustes no texto final.

Para os consumidores brasileiros, analistas apontam que o acordo pode levar à redução de preços de produtos importados, como vinhos, azeites, queijos, lácteos, veículos, medicamentos e insumos para o agronegócio. Também é esperada a chegada de marcas europeias que hoje não atuam no mercado nacional, incluindo chocolates premium.

No campo das exportações, a expectativa é de maior competitividade para produtos agropecuários e calçados brasileiros no mercado europeu, com menos barreiras tarifárias.

As negociações haviam enfrentado um impasse que só foi superado no final de 2025, após a aprovação, pelo Parlamento Europeu, de salvaguardas para proteger produtores agrícolas da União Europeia — medida defendida principalmente pela França. Esses mecanismos permitem a suspensão temporária de benefícios tarifários em caso de desequilíbrios no mercado europeu.

Na véspera da assinatura, Lula se reuniu com Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro. Na ocasião, o presidente brasileiro reafirmou o compromisso do país com padrões elevados de respeito aos direitos trabalhistas e à proteção ambiental, além de defender uma estratégia de desenvolvimento que vá além da exportação de commodities. “Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado”, afirmou.

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