A presença feminina na cirurgia oncológica deixou de ser exceção e passou a representar uma mudança concreta no perfil da especialidade no Brasil. Nos últimos anos, mais mulheres têm ocupado centros cirúrgicos, liderado equipes médicas e se destacado em áreas historicamente marcadas pela predominância masculina. O avanço é visível — mas ainda não está plenamente consolidado.
Dados de entidades médicas e relatos de profissionais indicam que o número de cirurgiãs oncológicas cresce de forma consistente, impulsionado pelo maior acesso das mulheres à formação especializada e pela mudança gradual da cultura médica. No entanto, a equidade ainda encontra barreiras quando o assunto é poder de decisão, ascensão na carreira e ocupação de cargos estratégicos.
Apesar de atuarem diretamente na assistência, muitas profissionais seguem sub-representadas em posições como chefias de serviço, coordenações hospitalares, comissões técnicas e instâncias que definem políticas de saúde. A disparidade revela que o desafio atual não é apenas entrar na especialidade, mas permanecer, crescer e influenciar os rumos da área.
Outro ponto sensível está nas condições de trabalho. Jornadas extensas, pressão por produtividade e dificuldades de conciliar carreira e vida pessoal afetam especialmente as mulheres, que ainda carregam, em grande parte, responsabilidades familiares. A ausência de políticas institucionais voltadas à equidade de gênero agrava esse cenário e contribui para a evasão ou estagnação profissional.
Especialistas defendem que consolidar o progresso exige ações estruturais: programas de mentoria, incentivo à liderança feminina, transparência nos critérios de promoção e ambientes institucionais mais inclusivos. Além disso, a valorização da diversidade nos espaços de decisão tende a refletir positivamente na qualidade do cuidado ao paciente, na inovação científica e na humanização do atendimento.
O aumento de mulheres com bisturi representa mais do que uma conquista individual. É um indicativo de transformação social dentro da medicina. Para que esse avanço não seja apenas estatístico, mas duradouro, é fundamental garantir que as cirurgiãs tenham voz, espaço e reconhecimento compatíveis com sua atuação.
No contexto da saúde pública e privada, consolidar a presença feminina na cirurgia oncológica é também fortalecer um modelo mais justo, diverso e eficiente de cuidado — algo que beneficia profissionais, instituições e, sobretudo, os pacientes.




