Banco Central aprova Nelson de Souza para presidir o BRB em meio a auditorias e crise desencadeada por operação da PF

O Banco Central (BC) autorizou a nomeação de Nelson Antônio de Souza para a presidência do Banco de Brasília (BRB), após sua aprovação pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). A posse ainda não tem data definida, mas ocorre em um dos momentos mais delicados da história recente da instituição, marcada pelas suspeitas levantadas pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga fraudes envolvendo a emissão e negociação de títulos de crédito ligados ao Banco Master.

A escolha de Nelson de Souza — profissional com longa trajetória no mercado financeiro e ex-presidente da Caixa Econômica Federal — foi vista como uma tentativa de estabilizar o BRB, cuja antiga direção foi afastada por decisão da Justiça Federal. A mesma decisão determinou auditorias profundas nas operações realizadas pelo banco nos últimos dois anos, com prazos específicos para entrega de relatórios ao Judiciário: 20 dias para examinar as operações de 2025 e 60 dias para revisar as transações de 2024.

Auditorias miram governança e operações sob suspeita

As análises exigidas pelo BC e pela Justiça têm como foco operações com possíveis irregularidades relacionadas ao Banco Master, além da avaliação de ativos e de garantias utilizadas nas transações investigadas.

Especialistas apontam que o processo será determinante para restaurar a governança interna ― hoje o maior desafio do BRB. Para o economista Roberto Luis Troster, ex-chefe econômico da Febraban, as auditorias devem identificar se houve falhas de compliance e se as decisões tomadas pela antiga diretoria seguiram critérios técnicos consistentes.
Segundo ele, “o objetivo é retirar dúvidas, dar transparência e permitir que o banco continue operando com segurança”.

A avaliação é compartilhada pelo economista Newton Marques, professor da UnB, que destaca que o novo presidente chegará com a missão de conduzir o banco durante o período de amplo escrutínio externo. “Não há solução mágica. A reconstrução passa por governança, correção de falhas internas e revisão de operações que eventualmente fugiram das regras”, afirma.

Impactos para a reputação do banco

O professor João Gabriel Araújo, do Ibmec Brasília, reforça que as auditorias em curso terão impacto direto sobre a percepção de risco e confiabilidade do BRB, tanto no mercado quanto entre seus clientes. Para ele, uma resposta rápida e transparente é essencial para preservar a reputação da instituição.

“Uma auditoria minuciosa informa a investidores, ao governo do Distrito Federal — maior cliente do banco — e à população qual é o real estado das operações. Isso reduz incertezas e fortalece a credibilidade do BRB”, explica.

Nelson de Souza promete foco em liquidez e transparência

Durante a sabatina na CLDF, Nelson de Souza recebeu 16 votos favoráveis e 6 contrários. Ele afirmou estar comprometido em fortalecer a credibilidade do BRB, ampliar resultados e assegurar governança sólida.

Questionado sobre a segurança dos correntistas, ele destacou que sua prioridade será proteger a liquidez da instituição e aprimorar controles internos. “Teremos cuidado com inadimplência, aplicações, carteiras de crédito e todos os pontos sensíveis da gestão bancária”, disse.

Nelson também se colocou à disposição para prestar contas regularmente ao Legislativo, afirmando que pretende retornar à CLDF em até seis meses com os primeiros resultados das auditorias.

Pressão política e efeitos da Operação Compliance Zero

O clima de instabilidade no setor financeiro do DF foi ampliado com a operação da PF que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acusado de participar de um esquema de falsificação de títulos para fraudar o Sistema Financeiro Nacional.

A repercussão levou a senadora Leila Barros (PDT-DF) a cobrar explicações da Previc sobre investimentos de fundos de pensão em papéis ligados ao Master. O requerimento, com prazo de resposta de 45 dias, pede detalhamento dos riscos de prejuízo e de eventuais falhas de fiscalização nos últimos dois anos.

Riscos tributários e desafios legais

A mudança de comando também abre discussões sobre os riscos tributários que podem surgir caso a auditoria revele falhas nas operações anteriores.
Segundo o advogado tributarista Pietro Reo Donghia Rondó, uma auditoria interna eficiente é essencial não apenas para a governança, mas também para evitar autuações e multas severas.

Ele alerta que inconsistências podem gerar desde “passivos tributários ocultos” até acusações de omissão de receitas, caso haja registro inadequado de provisões e despesas. Rondó destaca que a retificação voluntária de informações contábeis e fiscais pode evitar penalidades, mas exige rapidez e precisão.

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