Expedição científica brasileira investiga abismos do Atlântico

Uma expedição científica partirá neste domingo, 20, de Fortaleza (CE) para mapear e explorar a Zona de Fratura Romanche, uma formação submarina de aproximadamente 1 mil quilômetros de extensão, composta por uma sequência de montanhas e vales, localizada a meio caminho entre a Costa Nordeste do Brasil e Oeste do Continente Africano.

Batizada de The Gap, a iniciativa usará um rover e um submarino autônomo, pilotados a partir do navio de pesquisa Falkor (too). Com eles, irão mapear duas áreas distintas e coletar amostras de rochas e vida em suas paredes, em profundidades de até 4mil e 500 metros.

O grupo investiga a área com ocorrência de um fenômeno conhecido como ressurgência equatorial, que é a elevação de águas mais frias, cheias de nutrientes, para a superfície marinha. Sazonal e provocada principalmente pelos ventos alísios, é comum nas regiões intertropicais e importante pois leva a um aumento nas populações de animais microscópicos, base da cadeia alimentar marinha.

“Nosso principal foco é identificar e mapear a relação da ressurgência com as comunidades profundas, além de estudar a dinâmica das correntes e a morfologia dos habitats de fundo, observando a influência dessa produção de alimentos na superfície sobre esse fundo”, explica o professor José Angel Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Para Perez, que lidera a expedição, é importante conhecer estes mecanismos pois 70% da crosta do planeta está em regiões de oceano profundo, mas paradoxalmente é uma região da qual conhecemos menos de 1%. Ao levantar evidências científicas concretas desta riqueza e do impacto da ação humana, os cientistas pretendem subsidiar estudos futuros e mostrar a importância de áreas de preservação

Outro ponto ao qual os cientistas estarão atentos são os impactos das mudanças climáticas nestas comunidades, pois os ventos na região tem apresentado alterações e isso influencia toda a cadeia. Somado ao processo de acidificação dos oceanos, ele ameaça importantes reservatórios de vida marinha, como os recifes de corais.

O primeiro passo do grupo, que deve chegar na área por volta de 25 de setembro, será mapear o Romanche com uma sonda acústica do navio, por cerca de dois dias. Com este mapa, chega a hora de descer até os paredões e para isso, os cientistas vão usar o SuBastian, um robô operado remotamente (ROV), capaz de mergulhar até 4,5 mil metros de profundidade.

O equipamento, considerado de alta performance, será responsável por coletar amostras submarinas e é pilotado por cabo a partir do navio de pesquisa. Sua operação será transmitida, ao vivo e com narração, pelo canal do Schmidt Ocean Institute, patrocinador da exposição que cedeu os equipamentos.

“É uma coisa nova pra mim também, mas acho muito muito gratificante a gente poder trabalhar e mostrar para todo mundo, para o mundo inteiro, cada momento disso”, conta Perez. O grupo também fará algumas chamadas, em tempo real, com instituições de ensino já selecionadas.

Para as áreas mais promissoras, utilizarão o submarino autônomo, capaz de se aproximar ainda mais do fundo e de detalhar com precisão de centímetros, construindo um mapa com nível de detalhamento muito melhor. A operação será repetida na segunda área, mais próxima da costa da África.

A expectativa da equipe é que os primeiros resultados sejam sistematizados em cerca de dois anos.

“Mas é claro que com todos os especialistas a bordo e todos os alunos que estão lá também estarão fazendo seus trabalhos, e podemos dizer que estes resultados devem render ainda por cerca de uma década”, aponta Perez. 

O grupo liderado por Perez é composto por outros 5 professores universitários brasileiros (2 da Univali, 1 da USP, 1 da UFRGS e 1 da UFES), 7 estudantes, 1 pesquisador e a tripulação. No total, 25 especialistas de cinco nacionalidades farão parte da equipe, que deve desembarcar em Gana em 26 de outubro.

Eles utilizam o navio de pesquisas Falkor (Too), cedido pelo Schmidt Ocean Institute (SOI), instituição que fomenta pesquisas sobre os oceanos. Em 2026 o SOI promove outras oito expedições no Atlântico Sul e Caribe, todas sem fins lucrativos e com o compromisso, por parte das equipes científicas, de disponibilização pública dos resultados das pesquisas.

A Univali integra o Programa de Mar Profundo, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), tendo participado, desde 2009, de expedições desta natureza, com outras expedições nos anos de 2013, 2018, 2019, 2022 e 2025.

 

Guilherme Jeronymo – Repórter da Agência Brasil

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